terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Uma breve reflexão sobre os hábitos de leitura do brasileiro


Há algum tempo venho analisando as listas dos livros mais vendidos no Brasil e, em todas as ocasiões, me deparei com uma característica curiosa: brasileiros tendem a comprar mais livros de autores estrangeiros quando o assunto é ficção. Já quando falamos de não-ficção e autoajuda, os autores nacionais são os mais requisitados.

"Fim", de Fernanda Torres

Segundo lista publicada pela revista Veja no início de fevereiro de 2014, apenas um entre os 20 livros de ficção mais vendidos é de autor nacional. Na verdade, uma autora nacional. Trata-se do livro "Fim", da atriz, agora, escritora Fernanda Torres. Talvez, se a autora não tivesse um nome conhecido por causa do seu trabalho em TV, teatro e cinema, o livro não estivesse na lista dos mais vendidos. Claro que isso é apenas uma suposição, pois não conheço a obra.
O livro "A Culpa é das Estrelas" lidera a lista há 44 semanas seguidas. O autor John Green ainda possui mais quatro títulos na lista dos 20 mais vendidos. Além dele, estão na lista livros de Markus Zusak, Dan Brown, Suzanne Collins e outros.
"A Culpa é das Estrelas", de John Green
O cenário muda radicalmente quando o assunto é não-ficção. Liderada pelo livro "Nada a Perder 2", segunda parte (?) da biografia de Edir Macedo, a lista conta com 13 obras nacionais entre as 20 mais vendidas. Além disso, a lista de autoajuda e esoterismo também é tomada por autores nacionais.
Ultimamente, tenho observado alguma mudança no mercado literário nacional, principalmente com relação aos jovens. Autores nacionais, principalmente de fantasia, têm ganhado cada vez espaço na vida desse leitor. Eduardo Spohr, Raphael Draccon, André Vianco e outros são nomes que passaram a ser conhecidos dentro da literatura nacional nos últimos anos, apesar de não serem lembrados pela academia. Porém, o consumo de literatura de fantasia poderia ser bem maior, caso o brasileiro não tivesse um preconceito tão grande com o que é produzido aqui.

"Dragões de Éter", de Raphael Draccon

Desde pequenos somos obrigados a odiar nossos autores. O gênio Machado de Assis é o maior exemplo disso. Desde a época em que eu era aluno até hoje, nada mudou. Jovens, adolescentes e pré-adolescentes, são obrigados a ler obras complexas como "Memórias Póstumas de Brás Cubas" apenas para a realização de uma simples prova da escola ou do vestibular. Com isso, crucificamos o autor, acusando-o de péssimo escritor, que conta uma história confusa com um português arcaico. Sim, eu também fiz isso. No entanto, li esse mesmo livro já citado quando tinha 25 anos e hoje ele se encontra na minha lista de favoritos.

"Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis
Outro fator que pode ser levado em consideração é se o leitor, quando vai ler uma história de ficção, prefere fugir completamente da sua realidade e viajar para outros lugares, com nomes, cidades e culturas diferentes. Será que não nos sentimos confortáveis lendo uma ótima história que se passa no estado do Rio de Janeiro ou no Ceará? Porque, quando o assunto é não ficção, preferimos os autores nacionais? Talvez seja preciso ler histórias de superação de alguém que está perto de nós, que vive a nossa realidade (ou não) para que, de alguma maneira, possamos acreditar que também é possível para nós.
Para finalizar, devo dizer que temos apenas suposições, pois não podemos afirmar o que realmente acontece com a mente de todos os brasileiros. Também não estou dizendo que isso é errado. No entanto, precisamos ler mais autores nacionais, dos clássicos aos que estão começando. Mas lembre-se que o importante é ler o que te faz bem, independente da opinião dos outros.

Concorda ou discorda com o que foi dito? Dê sua opinião nos comentários e boa leitura!

E, por falar em livros mais vendidos, participei do Livrocast 039 sobre o best-seller "A Culpa é das Estrelas", de John Green. O papo ficou muito legal e, mesmo que você não tenha lido, vale a pena escutar pra saber um pouco sobre do que se trata a história. Não contém spoilers! Pode ficar tranquilo! Clique na imagem abaixo para ir à pagina do podcast.

 Livrocast 039 - A Culpa é das Estrelas


2 comentários:

Lu Tazinazzo disse...

Eu acredito que não existem verdades absolutas: quem lê de tudo não é melhor do que quem não lê nada, mas é melhor ler algo do que simplesmente não ler. É complicado, porque eu acredito que não existe leitura "certa", mas acho nocivo quando um leitor só consome "porcaria" (e a gente bem sabe que tem muita porcaria por aí). É difícil definir e discutir.

Eu não acredito que a gente tenha que ler autores nacionais e ponto. Eu acho que temos que ler aquilo que parece valer a pena e se for literatura nacional, melhor ainda. Eu acho que temos autores maravilhosos, mas muito são bem ruins, mal editados e arrogantes pessoalmente, sem saber entender críticas. É possível encontrar autores bons e ruins em qualquer lugar, eu acho que nacionalidade não deveria definir a literatura.

Nosso sistema escolar está totalmente equivocado e a literatura é ensinada da pior forma possível. Lamentável, mas eu vejo uma luz no fim do túnel: acho que os brasileiros leem mais do que antigamente.

Cléber de Castro disse...

Fato é que nosso sistema educacional tradicional não gerou em nós a paixão pela leitura. Não só não temos o hábito de ler, como também não entendemos nem sabemos nos posicionar diante do pouco que lemos, quando lemos. A moda dos livros estrangeiros não representa algo negativo, mas as experiências traumáticas que tivemos ao longo da nossa vida escolar, nos faz temer qualquer incursão pelo universo literário nacional! No entanto virar as costas para a literatura nacional sem sequer sabermos do que se trata é no mínimo uma confissão pública da nossa completa falta de leitura. Isso só valida a ideia de que brasileiro é "maria-vai-com-as-outras".Trágico!